O plantio adensado de eucalipto vem ganhando cada vez mais espaço entre os silvicultores. O grande atrativo tem sido a redução no custo de produção e os resultados maiores. Laércio Couto, especialista em silvicultura e o responsável pela implantação do sistema no Brasil, explica o funcionamento dessa prática em entrevista a Eli Franqui. Confira os principais trechos.
O que é o plantio adensado?
De uma maneira geral, no Brasil, os plantadores de eucalipto, sejam eles produtores rurais ou empresas, utilizam o espaçamento inicial de 3m x 2m, no caso de mudas originárias de
sementes, e 3m x 3m no caso de clones, mudas originárias de propagação vegetativa. Neste caso, a rotação ou idade de corte da plantação gira em torno de 5 a 7 anos, quando a madeira pode ser usada para lenha, para produção de carvão vegetal, celulose e papel e outros usos que não requeiram árvores de grandes diâmetros. O plantio adensado é uma técnica de se plantar com um espaçamento inicial mais denso, ou seja, com um número maior de mudas por hectare (6 mil mudas no 3m x 0,5m contra 1.667 mudas no 3m x 2m e contra 1.111 mudas no 3m x 3m). O objetivo, neste caso, é maximizar a produção de biomassa de madeira por hectare, em uma rotação mais curta, 1 a 2 anos contra 5 a 7 anos do plantio tradicional. É importante notar que neste caso deve-se trabalhar com clones que tenham boa capacidade de brotação, pois após a primeira colheita, as próximas serão baseadas na brotação das cepas originais. Espera-se que possam ser feitas no mínimo duas colheitas a partir da brotação, quando então será necessário reformar o plantio. Este sistema foi testado no Brasil na década de 70, pelas indústrias do setor siderúrgico de Minas Gerais, mas não funcionou em face da variabilidade genética das mudas que eram originárias de sementes. Com clones, este sistema funcionou, conforme trabalho realizado em Itamarandiba, Minas Gerais, em tese de Doutorado realizada na Universidade Federal de Viçosa. Na Inglaterra e na Suécia, este sistema de plantações adensadas para produção de biomassa para energia é bem conhecido e utilizado com o Willow, que é uma planta da família do Chorão.
De onde surgiu a técnica?
Na década de 70, empresas do setor de siderurgia de Minas Gerais tentaram o plantio de eucaliptos em espaçamentos adensados, para tentar conseguir em rotações mais curtas que 5 anos, madeira para produção de carvão vegetal. A técnica não funcionou em face da variabilidade genética das mudas na época. Nos Estados Unidos, Canadá e Europa, o plantio de espécies florestais, como o populus e o willow, em rotação curta, tem sido praticada para a produção de biomassa para energia há vários anos. Na década de 90 o professor Laércio Couto, do Departamento de Engenharia Florestal da UFV (Universidade Federal de Viçosa), atual presidente da Renabio (Rede Nacional de Biomassa para Energia), realizou um treinamento em nível de pós-doutorado na Colorado State Univesrsity, nos Estados Unidos, e estudou esses sistemas com o professor David Betters e a pesquisadora Lynn Wright, do Oak Ridge National Lab. Baseado no que aprendeu, o referido professor estabeleceu em 2002, em Itamarandiba, em áreas da ArcelorMittal Jequitinhonha, com o apoio da Cemig e da Aneel, o primeiro experimento com plantações adensadas de eucaliptos clonais de curta rotação para produção de biomassa para energia. Este experimento serviu de tema para a tese de doutorado do engenheiro Marcelo Müller, orientado do professor Laércio Couto.
Qual a principal finalidade?
A principal finalidade do sistema de plantações adensadas de eucaliptos clonais é produzir em curta rotação, biomassa florestal para ser utilizada na produção de cavacos para geração de vapor para indústrias de secagem de grãos e produção de alimentos, para a produção de pellets e briquetes para exportação, para a produção de eletricidade, para a produção de etanol celulósico, para a produção de biomassa para produção de chapas de madeira e para produção de biomassa para produção de biocombustíveis via pirólise da madeira.
Quais as vantagens em relação às florestas tradicionais?
A principal vantagem do sistema adensado em relação ao sistema tradicional é a possibilidade de obter uma grande produção de biomassa por hectare, em um espaço de tempo ou rotação três a cinco vezes menor do que a rotação tradicional. Logicamente isto se refere à produção de biomassa, ou seja, cavacos, quando não existe preocupação com o diâmetro das árvores. Os fatores de crescimento da plantação florestal, tais como radiação solar, água e nutrientes do solo são melhores e rapidamente aproveitados pelo plantio adensado, produzindo em dois anos o dobro da biomassa que seria produzida em um plantio tradicional de 3m x 3m. O fluxo de caixa e o retorno financeiro se tornam mais atraentes para o investidor florestal e para o produtor rural.
Qual o custo para implantar o hectare? Faça uma relação com o outro plantio.
O custo de implantação do plantio adensado em relação ao tradicional será maior em face do maior número de mudas e da operação de plantio propriamente dita. No mais, as outras operações são as mesmas e o custo é o mesmo por hectare. Por outro lado, praticamente não haverá tratos culturais em face do sombreamento maior, devendo-se esclarecer que a utilização de colheitas subsequentes a partir da brotação das cepas irá reduzir o custo final da biomassa produzida pelo sistema de compararmos o mesmo período de anos de uma rotação tradicional de 5 a 7 anos ou de 6 anos em média. Por outro lado, o custo da colheita por hectare deve ser semelhante ao custo de colheita mecanizada da cana de açúcar, uma vez que ela é realizada por trator agrícola com um cabeçote dianteiro adaptado para colheita de árvores de pequenas dimensões. A Renabio e suas associadas estão no momento realizando os estudos de custos do sistema e análises financeiras do mesmo.
Quem está usando a técnica no Brasil?
O primeiro experimento, que já esta com 6 anos de idade, foi implantado em áreas da ArcelorMittal Jequitinhonha, em Itamarandiba, Minas Gerais, pelo professor Laércio Couto e com o apoio da Cemig e Aneel. Em seguida, a Ramires Reflorestamento Ltda, implantou em Ribas do Rio Pardo, Mato Grosso do Sul, em setembro de 2006, um novo experimento, maior do que o original, com cinco materiais genéticos. Uma pequena área experimental foi instalada em uma fazenda próxima à Primavera do Leste por seus proprietários, Givanildo e Juliana Brunetta. Recentemente, a URP (Usina Rio Pardo), estabeleceu em Avaré, Centro Oeste de São Paulo, o primeiro plantio piloto, em escala comercial, do sistema, com quatro diferentes tipos de clones. Outras empresas, como a Suzano Papel e Celulose, Gaia Energia e Participacoes, Energisa, GMR Reflorestamento e Energia do Tocantins S. A, Cotril Florestal S. A., EISA (Empresa Interagrícola), Timber Value, Cotia Trading, Coomex, Partner Engenharia e Senergem, tem manifestado o interesse em estabelecer plantios pilotos de eucaliptos clonais em espaçaamento adensado e de curta rotação.
Para o pequeno produtor é importante?
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